O estudo LENAD III sobre apostas é o maior levantamento epidemiológico já realizado no Brasil sobre o transtorno do jogo. Conduzido pela UNIFESP em parceria com a SENAD, o levantamento entrevistou mais de 16.600 brasileiros e revelou um cenário preocupante: aproximadamente 28 milhões de pessoas apostaram no último ano, das quais 10,9 milhões apresentam algum grau de risco e cerca de 1,4 milhão preenche critérios clínicos de jogo problemático. Este guia apresenta os principais resultados do LENAD III, o perfil dos apostadores em situação de risco e como o Sistema Único de Saúde (SUS) está estruturando sua resposta a esse problema de saúde pública.

Este artigo tem caráter informativo e educativo. Contém links de afiliados para operadores de apostas regulados no Brasil — a presença desses links não influencia os dados científicos apresentados, que provêm exclusivamente de fontes epidemiológicas e governamentais.

Índice

O que é o LENAD III

O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) é uma pesquisa de base epidemiológica desenvolvida pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), por meio da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD), em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD). A edição mais recente incluiu, pela primeira vez, uma subamostra dedicada exclusivamente aos jogos de aposta — tornando-se o maior estudo epidemiológico brasileiro sobre o tema.

O trabalho de campo foi realizado entre 2023 e 2024, com divulgação dos resultados em maio de 2025. A amostra principal abrangeu 16.608 entrevistados com 14 anos ou mais, de 349 municípios distribuídos por todas as regiões do país. A subamostra dedicada a jogos de aposta contou com 4.914 participantes. A pesquisa foi coordenada pela Dra. Clarice Sandi Madruga e pelo Dr. Ronaldo Laranjeira, referências nacionais em epidemiologia do consumo de substâncias e comportamentos aditivos.

Para medir a intensidade do comportamento de apostas, o LENAD III utilizou a escala PGSI (Problem Gambling Severity Index), reconhecida internacionalmente e aplicada em estudos de mais de 30 países — o que permite comparação direta dos dados brasileiros com outros mercados.

PGSI — como a escala funciona

A PGSI é composta por 9 perguntas com pontuação de 0 a 27. Com base na pontuação obtida, os apostadores são classificados em quatro níveis: sem risco (0), baixo risco (1–2), risco moderado (3–7) e jogo problemático (≥8). A pontuação igual ou superior a 8 corresponde a critérios compatíveis com diagnóstico clínico de transtorno do jogo, conforme definido no DSM-5. A padronização internacional da escala possibilita benchmarking com países que já regulamentaram as apostas há mais tempo, como o Reino Unido, a Espanha e a Austrália.

Classificação PGSIPontuaçãoDescrição
Sem risco0Nenhum impacto negativo identificado
Baixo risco1–2Impacto pequeno, sem consequências graves
Risco moderado3–7Algum impacto negativo; monitoramento recomendado
Jogo problemático≥8Critérios clínicos de transtorno do jogo

Resultados-chave do LENAD III sobre apostas

Os dados do levantamento revelam a dimensão do fenômeno das apostas no Brasil. Segundo o LENAD III, 25,9% da população brasileira com 14 anos ou mais já apostou ao menos uma vez na vida; entre esses, 17,6% apostaram no último ano — o que equivale a aproximadamente 28 milhões de apostadores ativos.

Quando se analisa a distribuição por modalidade, as loterias tradicionais lideram com 71,3% dos apostadores, seguidas pelas plataformas digitais de apostas (bets) com 32,1%, pelo jogo do bicho com 28,9%, pelas raspadinhas com 18,8% e pelos cassinos (físicos ou online) com 12,4%.

O dado mais relevante do ponto de vista de saúde pública é a prevalência de comportamento de risco. Aplicando a escala PGSI à população total com 14 anos ou mais, o estudo encontrou:

Classificação PGSI% da população totalEstimativa de pessoas
Sem risco10,6%~15,9 milhões
Baixo risco3,4%~5,1 milhões
Risco moderado2,6%~3,9 milhões
Jogo problemático0,8%~1,4 milhão
Total em risco (baixo + moderado + problemático)7,3%~10,9 milhões

Entre os apostadores ativos do último ano (e não da população geral), a proporção de pessoas em situação de risco sobe para 38,6% — ou seja, quase dois em cada cinco apostadores apresentam algum nível de comprometimento. O dado mais expressivo diz respeito às plataformas digitais: 66,8% dos usuários de bets apresentam comportamento de risco, índice que cai para 26,8% nas modalidades tradicionais.

Perfil demográfico dos apostadores

O LENAD III traça um perfil detalhado de quem aposta no Brasil. Em termos de gênero, 64,8% dos apostadores são homens e 35,2% são mulheres. A faixa etária de 25 a 49 anos concentra a maior proporção — 50,6% dos apostadores do último ano. Um dado que merece atenção especial é a participação de adolescentes: 10,5% dos jovens de 14 a 17 anos apostaram no último ano, o que representa aproximadamente 1,4 milhão de menores — em afronta direta à proibição legal estabelecida pela Lei 14.790/2023. Em termos de escolaridade, 42,9% dos apostadores têm ensino médio completo ou incompleto, e 26,7% têm nível superior.

Renda e desigualdade regional

Os dados de renda revelam um impacto desproporcional das apostas sobre as populações mais vulneráveis economicamente. Entre apostadores com renda inferior a 1 salário-mínimo, 52,8% apresentam comportamento de risco ou jogo problemático. Essa proporção cai para 31,2% na faixa de 1 a 2 salários-mínimos e para 21,1% entre quem ganha mais de 2 salários-mínimos.

Regionalmente, o Nordeste concentra a maior proporção de apostadores em risco: 52,3% dos apostadores da região apresentam comportamento problemático ou de risco. O Sul tem a menor proporção de apostadores em risco (28,0%), mas a maior taxa de apostadores ativos entre a população (20,4%) — o que sugere dinâmicas regionais distintas que devem orientar políticas públicas específicas.

Impacto na saúde mental e endividamento

Além dos números de prevalência, o LENAD III identificou os principais sinais de impacto psicossocial associados ao jogo problemático. Os comportamentos mais frequentemente relatados foram: perseguir perdas (continuar apostando para recuperar o que foi perdido), gastar além do planejado, sentimentos de culpa após apostar e conflitos familiares relacionados ao hábito de apostas.

Na dimensão de saúde mental, os apostadores em situação de risco relataram ansiedade crônica, isolamento social e sofrimento emocional significativo. O endividamento também aparece como consequência relevante: 7,3% dos apostadores em risco emprestam dinheiro ou vendem bens “na maioria das vezes” para financiar as apostas, e 2,6% relatam problemas financeiros frequentes decorrentes do comportamento de jogo.

Os grupos mais vulneráveis identificados pelo estudo são três: adolescentes de 14 a 17 anos, com 55,2% em situação de risco; pessoas com renda abaixo de 1 salário-mínimo (52,8% em risco); e usuários de plataformas digitais de apostas (bets), com 66,8% em risco — o grupo de maior prevalência absoluta. Esses dados apontam para a necessidade de políticas de prevenção diferenciadas por perfil, não apenas campanhas genéricas de conscientização.

O papel do SUS e da RAPS no tratamento

O Sistema Único de Saúde registrou 10.553 atendimentos por transtorno do jogo patológico entre janeiro de 2018 e maio de 2025, segundo dados do DataSUS. O número, embora expressivo em termos absolutos, é modesto frente à escala do problema identificada pelo LENAD III — o que evidencia uma lacuna significativa entre demanda potencial e oferta de cuidado estruturada.

O indicador mais relevante de expansão da resposta pública é o crescimento nos atendimentos realizados pelos Centros de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas (CAPS AD): de 413 atendimentos em 2021 para 1.265 em 2024, um crescimento de +206%. O Ministério da Saúde publicou uma nota técnica orientando toda a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) a estruturar ações específicas para o transtorno do jogo, e lançou em 2025 a agenda Jogos e apostas: impacto e estratégias para a saúde pública, que incluiu uma Oficina Nacional sobre gestão de jogos e apostas no contexto RAPS/CAPS.

Uma Linha de Cuidado específica para pessoas com problemas com jogos e apostas foi publicada pelo Ministério da Saúde (disponível em bvsms.saude.gov.br), orientando equipes da atenção básica e especializada sobre acolhimento, avaliação psicossocial, acompanhamento clínico, redução de danos e reabilitação psicossocial. O investimento anunciado é de R$ 6 milhões para a primeira pesquisa nacional dedicada a jogos, apostas e saúde mental no âmbito do SUS.

No campo da proteção ao apostador, o Ministério da Fazenda lançou em dezembro de 2025 a plataforma SIGAP (Sistema de Gestão de Autoexclusão de Apostadores), que permite o bloqueio simultâneo do CPF do apostador em todas as casas de apostas reguladas no Brasil. Mais de 574 mil bloqueios já foram realizados desde o lançamento, confirmando a relevância do mecanismo como ferramenta de proteção para quem reconhece que não consegue controlar o próprio comportamento de jogo.

Onde buscar ajuda — CAPS e RAPS

Para quem se identifica com sinais de jogo problemático — ou para familiares que buscam apoio —, os principais pontos de entrada no sistema público de saúde são os CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas), presentes em municípios de médio e grande porte, e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) com equipes de saúde mental. Para suporte especializado em jogo compulsivo, o portal SOS Jogador (sosjogador.com.br) oferece acompanhamento e orientação. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo telefone 188, 24 horas por dia, de forma gratuita, para situações de sofrimento emocional intenso.

Apostar pode ser viciante. Jogue com responsabilidade. Se você sente que perdeu o controle sobre o seu comportamento de apostas, procure um CAPS AD ou ligue para o CVV (188).

Comparação internacional

O Brasil não é o único país a enfrentar o crescimento acelerado do jogo problemático após a legalização das apostas online. A experiência internacional mais comparável é a da Espanha: dois anos após a legalização das apostas online naquele país, a prevalência de transtorno do jogo entre jovens passou de 3,8% para 16% — um crescimento de mais de quatro vezes em período relativamente curto. O padrão sugere que a expansão do mercado regulado, sem políticas robustas de prevenção, tende a gerar crescimento proporcional nos indicadores de jogo problemático.

A utilização da escala PGSI pelo LENAD III permite precisamente esse tipo de comparação cross-country: com o mesmo instrumento de medição aplicado em dezenas de países, é possível situar o Brasil no contexto global e aprender com políticas que se mostraram eficazes — ou ineficazes — em outros mercados. Os dados apontam que o Brasil segue a tendência de rápida expansão pós-legalização, o que reforça a urgência de uma resposta de saúde pública proporcionalmente ágil.

Conclusão

O estudo LENAD III sobre apostas representa um marco para as políticas públicas brasileiras: pela primeira vez, o país conta com dados epidemiológicos robustos e metodologicamente comparáveis com padrões internacionais para dimensionar o transtorno do jogo. Com 1,4 milhão de pessoas em situação de jogo problemático e 10,9 milhões em algum nível de risco, a escala do problema supera em muito a capacidade atual de resposta do SUS — que, apesar de ter triplicado os atendimentos via CAPS entre 2021 e 2024, ainda atende uma fração pequena da demanda potencial.

A expansão rápida das plataformas digitais de apostas, combinada com a concentração de risco em grupos vulneráveis (adolescentes, baixa renda e usuários de bets), reforça a urgência de uma abordagem integrada: regulação efetiva, mecanismos de autoexclusão como o SIGAP, e fortalecimento da rede RAPS/CAPS para acolher quem já desenvolveu o transtorno. Se você ou alguém próximo apresenta sinais de jogo problemático, procure um CAPS AD na sua cidade, acesse o SOS Jogador (sosjogador.com.br) ou ligue para o CVV (188) — o tratamento é gratuito e disponível pelo SUS.

Jogo responsável: apostar pode causar dependência. Estabeleça limites de tempo e dinheiro antes de jogar. Em caso de dificuldade, procure ajuda profissional.